ranzinza

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quarta-feira, 3 de maio de 2023

03/05/23 incapaz de sentir felicidade

 Há bastante tempo tenho a impressão de que sou incapaz de ser feliz. Como se fosse um tipo de falha motora, uma inabilidade. Eu sei que minha tristeza é passageira, como tudo na vida,as parece que depois que essa tristeza passar, eu não vou saber lidar com o bem estar e a felicidade, parece que outra tristeza deve vir. Talvez seja assim que aprendi a viver minha vida.

Eu sei que a felicidade é um instante, passageiro, mais breve que a angústia, e talvez eu seja mesmo um viciado em felicidade e esteja exigindo ela demais. Um viciado em recompensa. Viciado em dopamina. Com pouca paciência para esperar o momento definitivamente bonito de contemplação da vida. Mas acho que não é isso. Acho que estou acuado demais pelo cotidiano, estou oprimido demais, de forma que sinta que a recompensa não vai valer a pena.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

24/04/2023 - Pandemia. Compra do ap. 2021 e começo desse 2023. Minha situação psicológica.

Passaram mais de três anos desde a última vez que escrevi aqui. Logo depois da minha última postagem começou a pandemia do Coronavírus. Não preciso dizer dos 700 mil mortos e toda a problemática escrota de um país desgovernado, esse registro é universal. Fui muito privilegiado durante esse período, porque continuei recebendo meu salário como Prof. substituto da UTFPR e pude manter isolamento recebendo um bom dinheiro. Mas 2021 me assombrava, porque meu contrato terminaria, e a pandemia continuaria. 

No começo de 2021 voltei para o PSS (professor substituto de escolas públicas), dei aulas em duas escolas aqui do Hauer (meu bairro) trabalhando em condições piores, mesma carga horária, com metade do salário de antes, também comecei a dar aulas particulares de inglês. No fim das contas conseguia ganhar tipo uns 3mil reais por mês. Circulando sempre de máscara, nas escolas esvaziadas, dando aulas nas salas em frente ao computador com alguns alunos presenciais. Na minha memória esse ano todo foi muito frio, lembro de uma sensação de deslocamento e pés gelados. As escolas públicas são espaços tristes para ser professor, com elas esvaziadas então... comigo retornando a um mundo antigo, no meio de uma pandemia, em um cidade que eu estava me adaptando, que é a cidade onde nasci e onde sempre desejei morar... foi um ano estranho que teve efeitos psicológicos em mim (que falo em parágrafo posterior).       

Em setembro desse 2021, num domingo de manhã, uma mulher bem incoveniente da imobiliária entrou no nosso ap. e informou que a gente precisaria sair dali, porque a dona Nilda (dona do imóvel) morreu de Covid e as filhas dela precisariam fazer o inventário. Foi muito ruim essa informação pra mim, fiquei triste pela dona Nilda, toda a carga da pandemia recaía de certa forma sobre a morte dessa pessoa com quem eu falava de maneira tão gentil pelo whatsapp, pessoa que me transmitia uma segurança sobre aquele lugar que morávamos e eu gostava. Eu adorava aquele AP, ainda tenho em mim um desejo íntimo de voltar pra lá. Nos foi oferecida a compra dele, pediram 315 mil, eu tinha 135 mil reais no banco e o financiamento de 180 mil acabou ficando fora do que eu poderia pagar. Eu me senti humilhado por ter que sair de repente do imóvel tão de repente, em um momento que eu estava totalmente focado em escrever meu projeto de doutorado (no ano anterior eu não tinha passado no processo, e nese ano estava tentando dmais uma vez, era meu único projeto de vida, se eu falhasse de novo me sentiria terrivelmente mal), e no meio desse processo agora eu precisaria arranjar outra casa pra morar. Resolvi compar um imóvel, achei esse apê que estou agora, na quadra de trás de onde era o outro, a quadra toda com condomínios homogêneos, só muda as cores dos blocos. Por 210 mil comprei esse ap. no bloco verde. Paguei 105 mil de entrada e financei outros 105 mil: as prestações mensais ficaram cerca de 900 reais. Bem coerente com as minhas perspectivas de renda pra esses anos, e com a renda da minha mãe, que por ora continua morando comigo.

Embora eu tenha feito um negócio muito bom, (o engenheiro da Caixa avaliou o imóvel em 260 mil paguei 210), eu não gosto daqui. Me faz muita falta uma sacada (espaço aberto), estou passando quase todos os meus dias aqui dentro, estou apenas dando algumas aulas online (tenho dez alunos) e estudando para o meu doutorado. Estar nesse ambiente um tanto fechado com minha mãe de certa forma me angustia. Aqui se escuta muito os barulhos produzidos pelos vizinhos, desde batidas de portas, descargas, quando caminham, etc, também os barulhos dos carros na rua. Ano passado foi muito muito dificil pra mim, com meu sono muito leve, a velha que morava em cima tossia a madrugada inteira em algumas épocas, outras duas vizinhas acordam 6 da manhã e fazem muitos ruídos, o vizinhos de baixo dormiam tarde, e em certa altura do ano algum encanamento fazia muito barulho de dez em dez minutos, além disso abriu um pet shop na frente, do outro lado da rua, onde um cachorro com demência não parava de uivar. Agora o cachorro acostumou com o ambiente e já não uiva mais, a velha foi embora no começo desse ano e eu estou tentando me acostumar também, prestar menos atenção nos outros barulhos. Mas não gosto daqui, acho simplório demais, desde a pia do banheiro, até um espaço central que era pra ser a sala da tv, mas que fica muito escuro, mesmo durante o dia. 

Eu estava dentro do meu carro no estacionamento do colégio Guimarães em 2021 (estava bem frio) quando vi o resultado do edital do doutorado da UFPR em que constei na lista de aprovados, eu fui o penúltimo da lista. Me faltou ar. Nunca tinha me acontecido isso. Foi pouco antes do meu aniversário, deixei pra contar pra Allana, minha mãe e meus sogros só no meu aniversário, mas a Allana ficou braba que eu não contei antes, ela viu o edital. Já é meu segundo ano como aluno do doutorado, não ganhei bolsa e produzi muito pouco até agora, basicamente participo de um grupo de estudos com meu orientador em que lemos e debatemos livros sobre a formação do Brasil, atualmente estamos lendo "A História da Riqueza no Brasil" de Jorge Caldeira. Também estou no meio da última disciplina que vou fazer para contar créditos, "O outro de Classe", disciplina do meu orientador mesmo. Os corredores são feios, os elevadores riscados, as pessoas... sei lá, não gosto delas.  

Eu tinha feito duas sessões de terapia em 2019, e voltei a fazer terapia semana passada, a minha cabeça está muito fragilizada. Tenho pensado bastante em suicídio, tenho me sentido extremamente inseguro, incapaz, e sem horizonte. No começo desse ano fiz o teste seletivo para ser professor substituto na UFPR, UTFPR e IFPR: na UFPR não fui chamado nem para a segunda fase, por causa da pontuação do meu currículo, na UTFPR tirei 450 na prova escrita, precisava tirar no mínimo 500 para a próxima fase e no IFPR fiquei em segundo lugar geral, alguns poucos décimos apenas atrás da menina que passou em primeira e ficou com a vaga. Logo depois fui na distribuição de aulas das escolas públicas e não estava com os documentos certos, fiquei sem aulas (nessa mesma manhã, quando fui sair de casa, meu carro não ligou, e eu era um dos primeiros da lista a ser chamado, fui de uber, cheguei atrasado, e não me deram aulas por causa dos docs). Meu ano começou assim, me sentindo totalmente derrotado. E no último mês eu fiquei muito pressionado com a formatura da Allana, os pais dela estavam com as expectativas altíssimas, e eu me sentia pressionado a corresponder, mas sabia que não podia. A formatura foi semana passada, na quarta a noite a colação de grau e depois um bolo com champagne no ateliê da minha sogra, na quinta a noite o culto no alto da glória e uma janta no restaurante gonçalves, com muitos convidados e o vídeo surpresa para a Allana. Me preocupava muito a minha mãe, ela teria que estar lá, mas sei que ela não queria, e eu teria que levá-la e etc. no fim das contas ela foi e veio mais cedo de uber. Sábado a noite ainda teve o baile da formatura, que me custou 350 reais, e a partir da 5h da manhã saíria um ônibus para o after numa chácara que custaria no total mais 100reais. Eu sabia que esse after era furada total, mas a Allana quis ir (ela quer aproveitar a, ser parte da, galera da faculdade) e eu fui também porque estou escravo das minhas inseguranças. O ônibus deu o maior problema com as pessoas, ficou uma hora parado, saímos do baile as 6h da manhã, chegamos na tal chácara e comemos um pão com presunto, todo mundo com frio, cansado, fingindo que estava afim, com um DJ bem normal, viemos pra casa as 8h, de carona no uber com uma amiga da Allana. isso já era ontem, dormi até as 15h, e estou com o sono desregulado, aqui,15h15 da tarde de segunda escrevendo. 

Acho que vou correr. Aqui no prédio tem uma academia com uma máquina e alguns alteres e duas esteiras, bicicleta e tal. Talvez esse seja o único ponto desse apartamento que me deixa feliz. Estou correndo 8km duas vezes por semana, é o meu limite por enquanto, quero chegar a 10 km até o fim do ano, nunca mais joguei basquete, a pandemia bagunçou muita coisa em mim. Coisas que eu não sabia que estavam tão bagunçadas, mas a terapia da semana passada me fez pôr em perspectiva. Ainda me sinto isolado, deslocado e pressionado. Me sinto com dinheiro insuficiente (tenho 58k no banco e uma renda mensal de 2k dos juros e dos meus alunos paticulares). Parece mesquinho escrever isso, mas tenho 34 anos e zero estabilidade, e perspectivas cada vez piores para uma vida adulta. Também me sinto isoladíssimo fazendo o doutorado, tenho contato com pouquíssimas pessoas, tenho que pesquisar coisas sozinho, não há debates. Me falta afeto da Allana, ela é bem sisuda, e minha auto estima é colocada em xeque constantemente. Está um tanto difícil manter essa rotina que se desenhou em 2023 pra mim, embora a formatura da Allana tenha passado, na próxima semana fazemos 5 anos de namoro e também na próxima semana é aniversário dela, eu ODEIO datas comemorativas e todas elas estão aqui, nos mesmos 15 dias (Tudo em todo lugar ao mesmo tempo [preciso terminar esse filme inclusive]). Aliás, nesse ínterim estou estudando para um concurso para professor definitivo do IFPR de Colombo, embora tenham 185 pessoas para uma vaga (risos). Estou confuso, se vale a pena estudar pra isso, mas já estou estudando legislação pra essa prova há meses, que é quase certo que não vou passar. Enfim, as vezes meu desejo é abandonar tudo e todos. Mas vamos criando lastros que não nos abandonam jamais, só com a morte.

Vou lá correr, mais tarde vou escrever sobre a ausência do meu irmão, a crise de ciúmes recente que tive, e meu colesterol. 


Eu hoje depois de terminar o texto e correr 8km em 40 minutos
Selfie de um momento crítico durante a pandemia


Esse urubu, junto com outro sempre aparecem na janela da academia do prédio quando está meio calor.

O ap que comprei, quando o Jair estava pintando pra então eu morar aqui. Essa é a sala que deveria ser a sala de TV, mas que é muito escura porque não tem iluminação direta. Parte do AP que não gosto. 

Essa é a parte que resolvi colocar a TV, pela iluminação e por ser no canto.

Imagem do Ap. antigo, quando fui visitar ele antes de alugar. 

Corredor do Ap antigo

Começo da pandemia

Aniversário em 2020 (Allana fez o bolo pra mim)

Esse jogo foi um escape/vício durante a pandemia, ainda jogo. 

  

          

domingo, 23 de fevereiro de 2020

24/02 /2020


Acho que nunca teve um espaço de tempo tão grande sem postagens aqui. Existe um motivo pra isso, e um motivo porquê voltei a escrever:

Estava olhando uma das últimas postagens, quando estava escrevendo da casa do Alisson, nos dias que estava fazendo o concurso pra dar aula na UTFPR Curitiba. Eu não passei no concurso, de fato, no resultado final estava escrito Lucas, não Diego. Acontece que em dez de fevereiro de 2019 (um ano e catorze dias atrás) vim morar em Curitiba mesmo assim. Passei todo janeiro de 2019 na casa da Allana aqui, e consegui um apê muito bom (piscina no condomínio) e viemos. Nossos custos aqui não seriam muito mais altos do que tínhamos em Pato, o aluguel daqui e o condomínio deveriam sair cerca de R$150,00 a mais, mas meu grande desafio seria conseguir trabalhar aqui. Era a minha angustia. Mas eu já vim inscrito no PSS e com todos os docs prontos e no dia 15 de fevereiro saiu convocação, no dia 16 eu fui ao núcleo de educação daqui e peguei aulas em duas escolas do centro. Acontece que a mãe sempre fala que eu nasci com o cu virado pra lua, de fato, foi um parto difícil porque eu estava com a bunda onde deveria estar a cabeça pra eu nascer, ela diz que eu não queria nascer: no dia 17 recebi a ligação da coordenadora do curso de Letras Inglês da UTFPR aqui de Curitiba (a Malu), pedindo se eu estava morando aqui em Curitiba e se eu poderia assumir o concurso que eu havia feito seis meses atrás, porque o Lucas desistiu (conseguiu um trabalho na PUC ou na Positivo). 
Então passei 2019 de maneira muito agradável, com uma vida totalmente nova, na capital, com um namoro sólido (moro a umas  oito quadras da Allana) com um salário muito bom (R$4200,00), com um trabalho muito agradável de professor na universidade. Nos último meses consegui me entrosar com um pessoal que joga basquete aqui no bairro e agora faço parte do time deles, o STORM, e em 2020 vou jogar alguns campeonatos com eles. 
Eu posso ficar o máximo de dois anos nesse cargo de professor substituto, depois tenho dois anos de carência, nesse tempo não posso assumir esse cargo. Acontece que meu contrato é renovado a cada seis meses e no segundo semestre de 2019 o Bolsonaro baixou um decreto cortando todo tipo de gasto das universidades, inclusive com professores substitutos e meu contrato não seria renovado. Foi um momento bem tenso pra mim, achei que o sonho viraria pesadelo, mas três semanas depois o senado derrubou o decreto, e fui renovado. Espero ficar até o fim deste ano.
Desenvolvi uma rotina agradável em 2019. Apesar de que morar com a mãe é algo que me amargura, e minha relação com a Allana tem limites demais. Ainda estou em fase de adaptação com a cidade, acho ela triste, cinza, mais suja e mais vazia (apesar dos ônibus enormes sempre cheios e as ruas sempre movimentadas). Não sei ao certo onde as coisas ficam e qual a lógica dos bairros e direções. Aqui a vida é muito  mais baseada em dinheiro, restaurantes, transporte, etc., e também não tenho amigos com quem eu possa dar um giro simples. Isso faz eu sentir um isolamento muitas vezes, como agora, que resolvi escrever.
Grabde parte da minha vida aqui diz respeito à Allana e a vida dela gira em torno da mãe e do Tê. Eu gosto deles, mas as vezes fico saturado da presença e da proatividade deles na minha/nossa vida. Sempre fazem muitas viagens e tem muitos planos para os fins de semana. 2019 fui com eles pra muitos lugares (Santos, Floripa, e outros) e agora no carnaval eles foram pra São Bernardo e eu resolvi ficar em casa. Acabou que tudo se assentou e resolvi escrever. Eu gostaria de manter o blog mais como um diário, afinal, há vários momentos em que faço o mundo parar de girar ao redor de mim, geralmente medito, mas aqui em Curitiba não tenho conseguido meditar muito. Talvez escrever aqui me ajude. Fui em três sessões de terapia pelo SUS, estava gostando, mas era sempre muito cedo (7:30 da manhã) e abandonei. Existem outros momentos da minha vida que eu quis voltar a escrever sobre mim, como fiz dos catorze ao dezoito anos. Quando decidi acabar meu namoro com a Gabriela comprei um caderno amarelo e escrevi muita coisa lá, mas não desenvolveu, talvez por esse blog estar online eu sinta que ele existe de verdade, que seu sinal está verde, conectado.
[Família]
[pensamento constante com morte]
[planos 2020]
[namoro]
[exercícios físicos]

Meu corpo, novembro


Uma manhã que levei a mãe pegar um ônibus para ir a Joinville. Aí é entre a Orleans e o Barigui

Começo da manhã. Vista da saída do condomínio

Terceiro andar da UTFPR, rampa de acesso sobre a rua sete de setembro.

Em uma das manifestações contra o governo

Saída do prédio, começo de alguma manhã

Torre da TELEPAR. Fui com Rodrigo, Kelma, Lê e mãe na metade do ano.



ZYiad, aluno do PFOL. Sírio. 

Meu aniversário. no Italy.

Fim do segundo semestre. Turma avançada do PFOL


Na UNILIVRE. Quando fizemos o passeio de ônibus de turismo


Quando consegui fazer esse trem de parada de antebraço

Mohammad. Aluno jordânio.

No Qceviche. Eu e Allana nos viciamos nesse restaurante por uns dias. 

Galeão Dourado. Barco pirata de floripa. Ganhei uma caipirinha em um concurso de dança porque eu era parecido com Jesus.

Meu aniversário. 

sábado, 25 de agosto de 2018

Socialismo, desajuste e liberdade


Eu gosto de albergues. Talvez sejam o espaço mais socialista dentro do capitalismo. Você lava a tua louça, você compartilha o chuveiro, compartilha o espaço do quarto, compartilha a mesa do café da manhã, compartilha a geladeira, é responsável pela tua janta, pode deixar na geladeira como doação o que não vai comer e pode comer as comidas que estão lá sem dono, porque são doações. Inevitavelmente (o que é bom pra mim que tenho viajado sozinho) você compartilha experiências, conhece pessoas.

Foi numa manhã antes de eu embarcar para Cuba, em um albergue em São Paulo, no bairro de Pinheiros, mais especificamente, atrás do largo da batata, na estação Faria Lima, linha amarela do metrô sentido Itaquera antes do Butantã, que compartilhei a mesa do café da manhã com um sujeito de Brasília. Um negro formado em direito que trabalhava de assessor de alguém no congresso e também estava sozinho no albergue, fazendo algo em SP que não me lembro mais. Mas conversávamos sobre política e cerceamento de direitos até que ele me disse que “se você respeita as tradições não existem motivos pra você existir. Se você só perpetua o que teus pais te ensinaram a tua existência é desnecessária”. Eu lembrei de Sartre “o que você fez com aquilo que fizeram de ti” e lembrei de Camus “o homem que não se rebela não existe”.

Eu já havia me questionado sobre aquilo, já estava cansado do velho existencialismo, mas levei em silêncio pra Cuba essa coisa das tradições, do respeito às tradições. Do não existir e só perpetuar. Foi uma experiência curiosa visitar tantos lugares importantes da revolução cubana tendo em mente a importância de revolucionar para existir. Sempre admirei os revolucionários cubanos por mudarem profundamente o seu próprio destino e o destino do povo todo, subjugado por uma sistema cruel.

Viver significa ser livre e ser livre angustia, porque ser livre significa fazer as tuas próprias escolhas, compor o teu próprio destino, e nos angustia fazer escolhas porque elas implicam a recusa do que não escolhemos, e deixar possibilidades pra trás entristece, nós que temos consciência da finitude da vida, e muitas vezes não dormimos tão tranquilamente como os cachorros, que não sabem das coisas (ando dormindo mal). Por isso se diz Cuba Libre, a ilha se desprendeu dos mandos dos EUA e abraçou o seu próprio destino. Fizeram a escolha mais difícil, serem livres. São raros. São como poucos indivíduos no mundo.

Existe a dicotomia de sujeitos que escolhem obedecer e serem passivos e dormirem tranquilos, e os outros (nos quais me encaixo) que se incomodam e querem ser autênticos, e se angustiam porque têm urgência de existir. É o “ser ou não ser, eis a questão”. Porém, também estou cansado dessa pergunta, e ando me questionando sobre: como posso ser autêntico em um mundo onde tudo se aprende? Será que a rebeldia não é um outro aprendizado? Que me ensinaram para que eu critique e deixe as coisas mais sofisticadas? Afinal, o socialismo surgiu como reação ao capitalismo e é antes de tudo uma critica a esse, que por meio dessas criticas se aprimora e nunca deixa de ser capitalismo.
Então a minha pergunta faz eu me voltar contra mim mesmo. Me ensinaram a querer ser livre para assim mudar algo mundo? E mudar algo no mundo para que o mundo continue sendo mundo, só que melhor depois de mim?

Eu acho que ninguém me ensinou nada especificamente. Eu escolhi acreditar em coisas baseado nas minhas afetividades, e para encontrar algum conforto de identidade no mundo criei noções de certo e errado. É claro que há muitos pós-modernistas que dizem que a verdade é cultural, construída, relativa, etc., mas por que eu tenho as minhas angustias vivendo na cultura que me ensinou a pensar? Será que vivo na cultura do desajuste? Se sim, nunca terei a minha liberdade e autonomia? Ainda acredito que não. Existe alguma verdade universal e estamos desajustados. Muita gente sofre e o sofrimento em lugar nenhum é cultura. Houve escravidão e há países (não culturas) que cortam os clitóris das mulheres. A burca é absurda. O estupro é nojento. Minha família errou quando eu não pude entrar na piscina com todos os meus primos na festa da família.
Essa tradição me excluiu e na exclusão fez eu existir. E querendo existir eu durmo mal e tenho olheiras, porque quero ver coisas diferentes.  

terça-feira, 19 de junho de 2018

Tudo mudou
agora somos só eu e você numa cidade de parasitas
Quando a chuva parou alguns dias atrás estávamos exaustos
Na desesperança sentíamos o cheiro que hoje sabemos que é de desamparo
Nunca foi desespero
Sempre foi letargia
Sem baterias, nosso relógio é um osso que faz sombra
Ventava quando soubemos do câncer
Fazia uma semana que a eletricidade tinha sumido
A população de ratos aumentava
Resolvemos estocar comida
Logo depois resolvemos procurar armas
Nossos princípios sorvidos pela verdade

O tempo parece ter parado
Agora somos só eu e você contra a natureza em uma cidade abandonada
Quem um dia acreditou em deus agora está morto e suas vidas deixaram marcas nas paredes
Lembra quando raspei minha cabeça naquele salão lindo?
Achei uma carta de amor na gaveta, decidi não te mostrar
Também vi sangue no chão do estacionamento e decidi não te contar
No dia que tatuei tua cara me senti feliz

Ana, esses auto falantes estarão mudos pra sempre?
Não sei se vou vencer o desespero
Eu olho pra frente no vazio e percebo tanta poesia que parece ter que ser escrita
Mas a humanidade acabou e a linguagem parece ter sido sempre só um sonho
Somos só eu e você numa cidade megalopólica cheia de moscas de verão
Eu deveria ter estudado Saxofone antes de tudo mudar Ana



quarta-feira, 6 de junho de 2018

eu vou apagar esse texto assim que o terminar
ele é uma saída para mim nesse momento
que estou confuso, com frio,
indigesto pelo litro de café que tomei ao longo do dia,
e pelas matérias que não consegui estudar ao longo do dia,
da aula que tenho que dar na terça, daqui cinco dias
como segunda fase do concurso para o trabalho que tanto quero
e para o qual competimos eu e outro sujeito mais preparado que eu
estou em Curitiba
nasci aqui meu pai morreu aqui está enterrado aqui
mas estou longe de casa
onde nem sei onde é
mas que tem minhas coisinhas
pra onde sei que posso fugir
em momentos de aflição de pés gelados de falta de disciplina e concentração
começou a chover aqui
e o apê é bem pequeno e não é muito limpo
e colada à minha cama fica uma cortina blackout suja
estou gastando bastante dinheiro, circulando, bebendo, fazendo sexo
inquieto quanto ao futuro,
tenho o sonho de me juntar ao exército revolucionário sírio
estou tentando ser professor substituto universitário
salário legal que me dará autonomia
tenho um romance começado, do qual gosto mas sou indisciplinado para escrever
em cinco meses faço trinta anos
há nove meses defendi meu mestrado
há cinco meses fui sozinho para Cuba
há cinco meses dou apenas umas aulas particulares de inglês e jogo basquete
medito
repenso planejo penso sou
está difícil me apaixonar, algo precisa mudar
talvez os meus ossos estejam alcançando minha pele
tenho medo de o bolsonaro se tornar presidente
estou frustrado pelo lula estar na cadeia
tenho um bom projeto ideológico chamado PULA
(Pensamento da Unidade Latino Americana)
que está somente em projeto há seis meses
não consigo mais morar lá com minha mãe
não quero deixar ela sozinha
mas
de alguma forma o mundo todo ganha sentido pra mim cada dia mais
tenho momentos de lucidez e paz como nunca tive na vida e sinto que sempre os busquei
não sofro mais, não dependo mais de coisas que são inconstantes, não me sufoco mais
talvez por ter 68 mil reais guardados no banco
talvez por não ter patrão
talvez por conseguir argumentar de tranquilamente de acordo com meus princpios
por ter as ideias organizadas
talvez por ter aceitado o mundo um pouco mais
talvez por ter saído da adolescência plenamente já a alguns anos
sei que sou mais meu
apesar das angustias, frustrações, tristezas, incertezas, projetos inacabados, sonhos utópicos demais,
e realidade distópica demais, sei que sou mais meu
sou mais meu do que ontem.
Apesar de estar enroscado com várias meninas que dedicam sua verborragia a mim, e não conseguir afastá-las plenamente,
sei que consigo dizer a verdade com mais confiança.
Faço sexo melhor e não me preocupo em me atrasar.
**
Estou dedicando semanas da minha vida para este concurso, estou dedicando bastante dinheiro por estar longe de Pato Branco, e o sujeito que concorre comigo é aparentemente mais bem preparado que eu, tudo bem se eu falhar? Se no resultado final, depois de todas as horas em Curitiba e toda a alimentação em torno da oportunidade de voltar para a capital de maneira autônoma, estiver escrito no edital não Diego mas Lucas?
Acho que sim
Porque estou aqui também para estar ao redor da Allana e me divertir algumas noites e sair de perto da minha mãe e da rotina que ando tendo em Pato Branco.
Mas se estiver escrito lá Diego, pago o caminhão, trago minhas bagulhagens e venho pra cá e trabalho aqui e continuo ajudando a minha mãe com grana onde ela escolher morar e vivo como um homem responsável, feliz, adulto e livre.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Embarques

Se não estou enganado eu tinha vinte anos quando embarquei para Buenos Aires, na rodoviária de Foz do Iguaçu, eu estava realmente muito cansado. Era 18hrs e eu tinha chegado na cidade às 7hrs, para economizar R$30,00 eu não passei o dia em um hotel e fiquei vagando. Dormi no shopping sem querer às 15hrs. O cheirinho de café e a musiquinha do shopping atraíram os duendes do sono que trabalham em mim, quando abri os olhos um segurança me encarava e o relógio tinha corrido.

No momento do embarque dois alemães não estavam conseguindo se comunicar por não falarem português, nem espanhol, e por algum motivo me procuraram para ajuda-los. Quem me procurou foi uma mulher muito simpática, que logo soube ser mãe da Paola, cujo pai é argentino, e os dois, Paola e Alberto estavam embarcando para Buenos Aires.

Alberto me ajudou muito porque embarquei apenas com a passagem de ida, sem qualquer reserva de hostel, passagem de volta, planos, nada! Mas nesse momento confuso do embarque, em que dois alemães sujos entupidos de bagagens e uma família meio argentina meio brasileira se aglomeravam ao redor de mim, conversei com uma velinha, que se não me falha a memória usava uma bengala.

Infelizmente não me recordo seu nome agora, mas ela me perguntou o que eu ia fazer em Buenos Aires, e como eu não tinha resposta pra essa pergunta falei que ia estudar, o que não é mentira, uma viagem é um aprendizado acima de tudo. Ela ficou muito feliz! Me falou que era isso mesmo que os jovens deveriam fazer, me motivou, falou que na década de 1950 fez a mesma viagem que eu estava fazendo naquele momento, quando ela ainda estudava jornalismo e que ainda nem existia jornalismo no Brasil. Me falou para andar a pé pela cidade “Não pegue taxis! Caminhe pelas ruas, vá nos cafés! Buenos Aires se parece muito com Paris.”

“Buenos Aires se parece muito com Paris”. Já tinha ouvido isso algumas vezes antes, sempre achei um absurdo. Logo do desembarque em Buenos Aires, no taxi em direção ao centro, eu pensei “caralho, Buenos Aires se parece muito com Paris!”. Nunca estive em Paris, mas sei que Buenos Aires se parece muito com Paris (o centro, claro).
Então eu chego onde eu quero chegar nessa história: eu nunca morri definitivamente, mas sei que o caminho dos recém mortos em direção ao purgatório é exatamente como uma noite em que eu estava indo a pé em uma novena com minha avó.

Estávamos em Ampére e eu deveria ter uns onze anos, a rua era de calçamento mal feito, os postes que estavam acesos tinham luzes fraquíssimas, as casas que passávamos tinham cortinas fechadas e luzes amarelas por dentro. Era um bairro de periferia de uma cidade muito pequena de um estado secundário do nosso grande país de terceiro mundo.

Minha avó sempre foi carrancuda e nunca gostou muito de mim. Era como se ela me puxasse naquela (provável) terça-feira a noite de (provavelmente) outubro. No caminho tinha estrelas, corujas, ventos suave nas árvores, penumbra, e um medo profundo que nunca se manifestou mas sempre existiu. Era como se uma grande verdade tivesse sido revelada e ela era má e nada se podia fazer a respeito a não ser se calar, se ajoelhar e se submeter. Logo as velhas se encontraram em uma capela lazarenta de triste. Todas caminhando devagarzinho, rezando juntas baixinho, umas falavam a língua dos anjos. Meu radar pré adolescente nunca decodificou o segredo do lado oposto das janelas redondas e altas. Os santos imóveis de olhar perdido por décadas nos altares, os desenhos com cores pálidas nas paredes que cheiravam fumaça doce de sininho de padre. Bancos de madeira santa demais para vermes. Quanta gente já foi velada ali?

Se na morte existe uma transcendência intensa dentro da nossa mente que seja uma apoteose do que foi a nossa vida, certamente o meu caminho para o purgatório será uma resgate da carranca da minha avó me carregando nessa noite, nessa manutenção da sua morte que é a sua vida.