ranzinza

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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Houve certa vez um deus



Herança da química original
Uma vez existiu um deus
Cabeçudo e capcioso
Com um machadinho em cada mão
Assassinava, assassinava
Um por um seus inimigos
Parecia o cão.

Reescreveu a historia
Se fez único e central
Gozou no universo
Logrou os caixas de todos os núcleos de tempo e espaço inalcançáveis por nós – diga-se de passagem: restos miseráveis
Apertou a corda da capa no pescoço
E engatinhou à perfeição
Sem culpa, sem cor, sem matéria
Sem a porra de um animal de estimação
Houve uma vez um deus – lugar comum chamá-lo de menino brincalhão
Não era deus de ninguém porque não era
Só se concebia
Quando sequer o granito existia.

Praias inexplicavelmente lindas tinhas ondas já quebrantes antes mesmo da ideia de homem soprar no mundo
Mas esse deus já fazia buracos e cortava, cortava todas as concepções
Com a aspereza de ser absoluto
Nítido
Livre
Selvagem
Verdade
Pureza
Vida

Houve certa vez um deus
Anterior ao aramaico
Indefinível em qualquer idioma

Qualquer poesia


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Judas


Eu costumo levantar cedinho nos sábados e ir correr na pista de atletismo na saída da cidade, algumas vezes faço isso nas sextas à noite também. Gosto de estar sozinho naquele enorme espaço aberto enquanto corro, e raramente há alguém lá nestes horários.

As ruas estavam completamente molhadas e haviam poças no meio dos terrenos e construções inacabadas naquela manhã. Ao chegar na pista, ao sair do carro, vi um filhote branco de pitbull amarrado à tela que cerca o local. Ele estava ensopado, em pé na grama molhada e suas pernas tremiam, parecia exausto e em intervalos simétricos de cinco segundos, com o olhar perdido, dava um latido rouco que ecoava por todo o lugar. Imaginei que ele tivesse sido esquecido ali na noite anterior, e como carrego um certo trauma de cachorros desde a infância, passei reto e receoso ao lado deste e entrei no portão de acesso à pista.

O trajeto tem oito raias e um total de 400 metros, no meio do circuito há um enorme gramado com duas traves móveis de futebol, amarelas e sem redes. No outro extremo da entrada ficam as armações de ferro e bancos de concreto destinados aos alongamentos. Como sempre, naquela manhã eu caminhei esta meia volta, do portão aos ferros, em total silencio, olhando para os meus tênis, a cidade longe, as árvores, os morros e o céu, como se estivesse tentando sentir o que este sábado tinha a oferecer.

Eu ouvia as latidas pausadas miseráveis do pitbull enquanto caminhava, percebi que ia me afastando delas, mas mesmo do outro lado, nos ferros, ainda daria para escutá-los e aquela rouquidão abandonada e triste me acompanharia ritmada a manhã inteira. Eu buscava o transe que toma conta do corpo e dos pensamentos quando se corre em silêncio e sozinho, mas isso é coisa muito delicada e qualquer detalhe me tomava de assalto, naquela manhã seria a situação do cão e a melodia do seu latido.

Mas ao chegar nos ferros vi alguém caído. Era um rosto muito familiar embora de alguém que eu não lembrava, não conhecia, tive um tipo de vertigem dentro do peito... fiquei confuso; também porque levei um breve susto, pensei que o sujeito pudesse estar bêbado e dormindo mas intuitivamente percebi que não era o caso – agora percebo os detalhes que li irracionalmente: ele estava caído de forma que chovia no seu rosto, o que o faria acordar caso estivesse bêbado, pois senti que estava ali há muitas horas devido ao quanto estava molhado, branco e com os olhos fundos; por fim ele estava de shorts de corrida, meias brancas e tênis da olímpicos -, percebi portanto que se tratava de um cadáver da noite anterior, e como tudo o que eu não precisava na minha vida naqueles dias, que seguiam o fim do meu casamento de nove anos, era envolvimento com um cadáver, com um crime, com o que quer que seja ... dei meia volta logo que me deparei com a cena, caminhei os mesmos duzentos metros no sentido contrário e um pouco mais rápido do que antes, dei uma olhada rápida no cachorro até ele dar a próxima latida, entrei no meu carro e saí dali.

De acordo com o laudo a polícia foi chamada para o local às dez e quinze da manhã, ao vasculhar o entorno encontraram uma garrafa de água junto com o celular e a chave da casa do sujeito em um canto próximo ao corpo. A ultima ligação feita daquele aparelho era para uma mulher chamada Giovana, que deu o endereço do apartamento do indivíduo e disse que seu nome era Pedro. No apartamento havia um revolver calibre 38 registrado em seu nome, além de evidencias que alguém esteve ali em menos de vinte e quatro horas: louça úmida no escorredor, um par de botas com barro semi-molhado frente à porta e do lado de uma mesinha branca onde haviam cigarros, relaxantes musculares, cartelas de paracetamol, omeprazol e benegrip, além da pequena chave do cadeado da bicicleta que estava no estacionamento, com a graxa da correia ainda úmida, e uma lista de compras onde estavam listados carne, cerveja, molho, cebolas, pasta de dente e camisinha. Também haviam indícios que o pitbull pertencia ao indivíduo: ração e jornais pelos cantos.

Fotos de vários ângulos dos cômodos do apartamento, fotos da bicicleta, da lista de compras, e a própria lista de compras estão nos laudos, onde está escrito também que às 11h40 da manhã foi encontrado pulso no indivíduo que teve que ser encaminhado à UTI, onde permaneceu do dia 08/08 ao dia 14/08.

Hoje é dia 16/08, o que quer dizer que há dois dias estou no quarto do hospital, com o braço direito paralisado, sendo sedado regularmente. Eu não lembro de nada. O médico está sentado aqui do meu lado, e me entregou o laudo com as descrições dos fatos e as imagens da casa como tentativa de recobrir minha memória. Ele me disse ao entregar o laudo que sofri a descarga elétrica de um raio na sexta a noite, quando fazia alongamentos nos ferros da pista de atletismo, que é um lugar propicio à situação por ser um lugar aberto além de ter as tais barras.

Mas eu não lembro de mim. Não sei quem sou nem onde estou ou pra onde vou. Tudo o que lembro eu vos disse.

Alias, há menos de um minuto uma mulher maravilhosa entrou pela porta, com o cabelo negro parcialmente preso em cima, e a franja para baixo, com o rosto de uma harmonia exuberante que me causou uma vertigem forte na alma quando a vi, como se dentro de mim houvesse raízes profundas onde fluxos contínuos de calor nascessem. Ela me viu, começou a chorar e me abraçou, e eu estou agora aqui com o queixo em seus ombros, vendo o sol entrar pela janela e ser fatiado pela persiana entreaberta.

A única coisa que eu sei é que a amo, e aliás, acho que o filhote de pitbull eu havia adotado dois dias antes e o chamaria de Judas. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Ah, o futebol!


“A rotina, os rituais, as repetições e os esquemas táticos dos treinadores são tentativas sem êxito de controlar as sombras do imponderável, do que não tem regras nem nunca terá, como disse a belíssima música de Chico Buarque.

O imponderável é também determinante em nossas vidas. Temos a ilusão de que podemos programar e racionalizar tudo e, de repente, somos surpreendidos pelo imponderável. ‘A vida dá muitas voltas; a vida nem é da gente’ (João Guimarães Rosa).” - Tostão.

O futebol é o olhar do homem que existe. O homem que com um olho cuida a bola e o outro conversa com o que uns chamam de consciência, outros de alma.

O futebol é a poesia que todo homem simples precisa. Todos os homens são simples. Quem sabe até deus tenha sido simples, pra fazer do mundo uma bola. E caso deus não exista, o universo, ou o que quer que tenha formado os planetas, é simples, por tê-los feito todos bolas. Nada é mais concreto, sólido e simples, do que uma bola, e nada é mais humano do que um pé, duas coisas que juntas formam o inexplicável “FUTEBOL”, “FOOTBALL”, “FUSSBALL”, etc. Esporte em que as suas dezessete regras básicas ficam muito - mas muito! - aquém de conseguirem definir.

Futebol é o motivo que temos para explodirmos os animais que vivem encarcerados em nós por tantas regras e tem como fim o gozo ou o choro, que são os privilégios incompráveis da vida. Mesmo que tantas propagandas cerceiem este esporte, devemos lembrar que as bíblias, os templos budistas e o alcorão também lidam com ouro.

O futebol é uma conversa profunda, íntima e sozinha. Afinal, a nossa real condição é de solidão. O futebol move montanhas, e não é o futebol que precisa do mundo, mas o mundo que precisa do futebol, uma vez que as montadoras de carros, e outras fábricas no estado de São Paulo, tem queda de produtividade nas semanas em que o Corinthians perde, e alta produtividade nas semanas que começam com um domingo corinthiano vitorioso.

É o futebol que move e desenha o mundo e nos faz, calejados de trabalho, pensar a vida em silêncio, com um olho no gato e outro no peixe. Já que a vida sem a tristeza e a felicidade juntas não é nada.

É possível que estejamos acostumados demais com as novelas das 6h, 7h, 9h, etc., onde os finais são repetitivamente felizes, e não estejamos atentos à verdade que o futebol vive denunciando para a gente: a vida é fatal, derradeira e injusta. Estamos à mercê de deuses moleques que jogam dados. São capazes de coisas lindas, mas vivem queimando formiguinhas com suas lupas.

Nem sempre o time mais preparado, mais hegemônico, dono do campo e da bola, vai vencer. Aliás, é possível que esse time seja duramente nocauteado, simplesmente porque além de o espaço entre o céu e a terra continuar recheado de mistérios, a alma também é misteriosa. 

É nos mistérios que reside a beleza, portanto o futebol  é lindo e nos mostra o quão boba é a ciência e multifacetado é deus.    

segunda-feira, 16 de junho de 2014



’Estava calor aquela tarde e o vizinho da frente escutava aquela música chamada “My girl”, quando eu abri a porta do meu apartamento e dei de cara com a minha mãe morta. Caída no carpete da sala toda vomitada. Não, não era 1950, Eu sei que vocês tem a imaginação coletiva cinematográfica seus idiotas, era 2017.’ Era o trecho que estava grifado, bem na página que ele abriu aleatoriamente, do livro que ele escolheu também aleatoriamente, na estante da biblioteca pública naquela tarde tediosa. Fechou o livro no mesmo instante e fez o empréstimo para quinze dias.” A gente gosta de ler, na verdade, coisas que lêem a gente. Essas coisas – bons livros, boas músicas, boas pessoas – tornam a gente especial e nos ajudam a lidar com a nossa própria desgraça.  

domingo, 8 de junho de 2014

Tudo neurótico



Neurose é ficar defendendo uma ideia singular demais que já foi vencida, pelo ambiente, pelo tempo, ou pelas pessoas ao redor. Como achar que todos devem se vestir como se vestia há cinquenta anos porque é mais bonito; como achar que tal quadro é melhor para tal parede, sem cogitar a possibilidade de qualquer outro quadro ali, mesmo que todos digam o contrário; como dizer que homossexualidade pode ser curada; ficar brabo com o garçom porque foi pedido suco de laranja e veio de maracujá; ler a manchete da notícia que o aborto foi legalizado, sem saber como, quando, porquê e onde, e sair praguejando contra o mundo. Trocando em miúdos, neurose é não admitir uma postura diferente da sua. E em outro contexto, neurose é culpar exclusivamente o governo pela vida em que não se está feliz em viver. Achar que levantar cansado na segunda-feira e ter que ir trabalhar é culpa da copa, ou do PT.

E como vejo tanto isso por aí, cheguei à conclusão que estão todos neuróticos.

O problema não é a copa, talvez seja o fato de percebermos que temos como fazer copa, - temos como fazer duas copas!-, e não temos escolas?! Quanto milho jogado para os neuróticos aí nué? O problema é percebermos que não foi do interesse do governo, até então, fazer escolas, mesmo tendo condições. Mas isso não era segredo pra muita gente, e isso já há dois séculos.

Ofereço então duas vertigens aos neuróticos, que são em geral des(mal)informados:
1ª - A grana dos estádios, que compete ao governo, é equivalente, dizem por aí, à grana do mensalão PSDB'ista que não foi para investigação.

2ª - Se produz no mundo dez vezes mais ração para animal, do que comida para ser humano, mesmo com uma fração significativa da gente passando fome, e, pasmem!, o responsável pela vida do McDonalds é você, não o PT.

(Neurose é desqualificar meu texto por achar que minha pontuação está errada, e [2º] me odiar por votar na Dilma)

Neurose então é culpar o PT, a Dilma, o Neymar, o Ronaldo Gordo, o Pelé, o frei, eu, etc., pelo peso das vidas que nós mesmos não fizemos suaves. A nossa felicidade é coisa singular demais, e o governo não a alcança.

No fim, talvez o neurótico seja eu que pensa que está todo mundo neurótico, mas é que estou aqui tomando meu drink sozinho porque todos os meus conhecidos estão tomando prozac e não podem beber.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Transeuntes eternos da tempestade

Agora eu entendo, depois de todo o deserto de chuva da adolescência, que vivemos num mundo barulhento - barulhento mesmo: carros, ônibus, gritos, tiros, batidas, corrosões, torções, quedas, etc. - e aí está a parcela histérica da nossa alma, por isso "Riders on the storm" sempre ofereceu  um diálogo profundo e íntimo com  esse eu louco, afinal não lembro de música mais suave que esta.

O contraste que complementa a suavidade sonora da música, e arrepia, está no fato de vivermos tão mergulhados num mundo de hipocrisia que quando se canta "Girl you gotta love your man, his world on you depends, our life will never end" a verdade impressiona.

É isso! Inserido em tanta angústia de uma sociedade de pecado, perceber tão suavemente que nunca morreremos, sempre me libertou.

O pecado é invenção dos brancos pobres opressores. O maior pecado, aliás, foi ensinar aos índios o que é pecado. Eles sempre foram livres na sua nudez, eternos nas suas liberdades e eternos no seu convívio com a terra, que é vida e que é morte.

Os indígenas deixaram a partir dos seus princípios - espíritos -, pra quem não sabe, como fruto essa música. E me libertaram cedo: a vida é tempestuosa, os medos são invenções e o transito não cessa.