ranzinza

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

POEMA PARA QUANDO NÃO EXISTIR MAIS O MUNDO


No mundo há uma árvore que permanece, não verga

ela continua

no mundo há noite, há dia

vento, silêncio

No mundo há sol, há terreno

há amplitude, solidão

No mundo o esporro do gozo supera a prudência

no mundo há vida

há gente, que se mistura, que se envolve, se odeia entre si entre tantas

no mundo há coisas, há ritmos, há beijos de língua, de bocas que fazem coisas estranhas, se mexem 

no mundo há barulho, aflição, desconcerto, mas no mundo há um centro, há nirvana

no mundo há um fio condutor, invisível, profundo, que atravessa todos os tempos pra sempre

todas as pessoas

no mundo nenhum rosto é igual ao outro, são bilhões

no mundo há eu, há você

a gente se distingue, a gente se encanta

esse é o mundo, a gente se separa

no mundo há sorriso, riso, risada, choro, escondido, exposto

no mundo há casas

vazias, habitadas, vazias e destruídas

no mundo há outras casas

no mundo há segredos, há prédios

hipopótamos

no mundo há bebê empelicado, esqueleto engavetado, catalépticos

no mundo as pessoas andam de bicicleta, equilibradas, vão longe, da infância à idade avançada

no mundo há outros países

continentes

rios, oceanos, o fundo do mar é profundo

no mundo há também meu coração

que se desespera as vezes

mas tudo bem, no mundo há ar pra todo mundo

e meu fôlego ainda está bem bom

Eu gosto do mundo

eu gosto até de odiar o mundo as vezes

no mundo há sensações, luzes refratárias, sons que reverberam, comida boa

MAS

[e muita atenção agora]

é preciso meditar!

se não o mundo não acontece


sexta-feira, 12 de julho de 2024

COMO EU GOSTO DE NIRVANA



 Eu sempre tive uma obsessão pelo Nirvana (outro dia li todo o laudo da utopsia do Kurt que vazou na internet, 63$ no bolso, um isqueiro e o bilhete da delta airlines de cinco dias antes). A guitarra, o baixo a bateria e a voz tudo muito nevral e germinal expressavam e representavam um tipo de angústia que nem eu sabia que carregava na adolescência. Pra quem era de família tradicionalmente conservadora e cheio da culpa católica, sem muita coisa na vida, era gostoso possuir essa música afrontosa contracultural. Ela falava por mim coisas que nem eu sabia que queria dizer, eu que era orelhudo e bocudo e tinha o apelido de macaco me sentia bonito e interessante com ela. 

Mas isso é porque eu era triste, uma criança triste, assustada com a morte do pai e a doença, luta e desespero da mãe, ao mesmo tempo cheio de saudades e deslocado (de Curitiba para Ampére), eu não gostava da minha vida. E o Nirvana representava outra vida, outro mundo, outra realidade, outra voz, outro código. Minha vontade de viver ficou canalizada nessa obsessão pela banda, comecei a projetar a minha vida em Seattle, Aberdeen, no começo dos anos 1990. As fotos nas revistas eram hiper analisadas, as letras traduzidas palavra por palavra do dicionário e interpretadas a revelia, as histórias eram fabuladas, os vídeos eram repetidos à exaustão, as músicas...vish, esse outro lugar se tornou quase uma realidade.

Mas eu fui me tornando mais complexo. Outras pessoas e outros lugares começaram a se tornar mais interessantes, Nova Iorque, Londres, Berlim, Tóquio, URSS. E fui me tornando ainda mais complexo e Cuba se tornou um sonho (que eu realizei), Rio de Janeiro (recente) Marrakesh, Casablanca, Buenos Aires, Medellin, Montevidéu, a arquitetura, o urbanismo, a política, a psicologia, a psicanálise, e o que hoje eu considero a coisa mais sofisticada é a arte, especialmente a literatura e a pintura. Porque nessa necessidade de viver outra vida, ser outra pessoa, essas parecem as formas mais absolutamente possíveis de comunicação, aquela comunicação que você penetra no outro se esse outro foi bom o suficiente para te convidar para além da sua superfície. Sinto muito pelo cinema, esse coitado é meio deficiente nesse sentido. 

Outro dia fui sozinho numa exposição do Ai wewei aqui no MON e eu não sei se eu sabia o que pensar ou sentir daquelas coisas, mas me senti bem com o estranhamento, o desconhecimento. Porque depois de tanto tempo tentando ser outra coisa, que não essa coisa desagradável, se tornou confortável o estranhamento, e atualmente acho que a melhor arte pra mim é essa que eu fico confuso. É como viajar pra outro planeta: a lógica da organização de vida deles não é a partir de cidades, ruas e ceps, seria a sensação de estranhamento mais visceral, a outra vida mais literal. O contrário disso é viajar pra Paris: não quero, deve ser caro e chato e óbvio. Acho que nesse momento eu quero a beleza e acolhimento do Rio e um livro interessante. Como diz o Joyce né o caminho mais longo é o caminho mais curto pra casa. 

Estou escutando PJ Harvey. Sempre gostei dela mas nunca escutei o suficiente. Outro dia li uma história de que o Kurt queria muito que ela fosse em turnê com o Nirvana, mas estava com vergonha e medo e ansioso de pedir isso pra ela porque ele gostava muito dela, até que em certo momento, num backstage, ele pediu e ela muito educadamente recusou. Isso teria sido em 1993, quando ela estava na turnê do Rid of me. 

PS: eu não ando mais querendo ser outra coisa, foi difícil, talvez a luta da minha vida seja isso mesmo, olhar para os meus traumas, entender meus desvios, minhas propriedades, aceitar a morte (minha e dos meus) e lutar metodologicamente contra a pobreza e a ignorância.   

 outro dia fiquei bons instantes observando os corvos flutuando no céu azul do jeito que eu gosto

quarta-feira, 5 de junho de 2024

NA BAÍA DE GUANABARA BRÁS CUBAS PARTIU A LISBOA


 Ontem fez aquele frio gelado e escuro que me dá vontade de morrer, hoje pelo motivo oposto estou querendo estar vivo. Quando quero estar vivo nunca é no sentido ansioso de celebrar a vida, nunca vi ela como uma dádiva, um presente e essas coisas imbecis. É só que está tudo bem estar por aqui, aceitando esse grande acaso que é possuir um corpo. As vezes tenho raiva de estar aqui, geralmente quando está frio, porque se soma a isso eu ser pobre, a cidade ser suja e um dia eu ter que morrer involuntariamente. 

Será que esses impulsos de morte tem a ver com o medo da morte obrigatória? Tipo aquelas pessoas que preferem odiar por medo de amar?

Não sei.

Minha situação de morar com a Allana não se resolveu até agora e estou cansado para comentar sobre isso. Mas está em vias de acontecer, e o meu foco principal é conseguir escrever a minha tese, à qual estou bem engajado e por isso estou ignorando toda a problemática de CASAmento. Se me perguntar, não quero! Mas cheguei a terminar o relacionamento, no dia seguinte me senti tão sozinho que tive a certeza de ter feito a coisa errada, ela topou voltar.

Estou engajado na tese porque a universidade está de greve, então estou com um tempo livre que ocupo com a teoria, a escrita, elaboração de ideias e etc. Neste exato momento estou aqui na utf, sozinho com o computador, organizado para mais um dia de escrita. Essa tem sido a minha rotina, dormir legal, fazer academia de manhã e vir para a universidade a tarde escrever a tese. Tenho alguns alunos particulares para quem dou algumas aulas de inglês a noite, média de 19h30 ou 20h. Isso me cansa. 

Recentemente li Dom casmurro, agora estou lendo Memórias póstumas. Estou ainda no primeiro terço do livro. Uma pérola. Já ri duas vezes, acho que nunca ri com a literatura, estou identificado com o cinismo do defunto autor: a vida é esse negócio medíocre que a gente insiste em dar alguma iluminação. Talvez um dia depois que eu morrer eu me veja um pouco como Brás Cubas, um pouco bobo, um pouco cínico, um pouco apaixonado, sem ter delegado a nenhum miserável a existência.

Aliás, semana passada eu e Allana fomos para o Rio de Janeiro. Realizei um sonho. Quero morar lá depois que terminar o doutorado, amei muito o lugar, as pessoas, a coisa toda. Não tem essa higiene hipócrita curitibana, e não falo da cidade, falo da neurolinguistica, a sinceridade realista, um tipo de desapego, e esse jeito de escritor de crônica dos cariocas me pegou. Ficamos na zona sul, um extrato especial do rio, mas a gente carioca é a mesma e o mar é maior que o chão.  

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

IDEIAS MAIS SUICIDAS DO QUE NUNCA


Tenho tido uma vontade genuína de me suicidar. Ao mesmo tempo tenho ficado um pouco apreensivo com isso. O que pode parecer contraditório (desejar morrer e ter medo de desejar morrer), mas não é, porque ao mesmo tempo que estou racionalmente desejando pular de uma janela do vigésimo andar, sei que estou desejando pular de uma janela do vigésimo andar. 
Ontem foi a formatura da Allana da pós graduação que ela fez na EMAP (Escola de Magistratura do Paraná), no vigésimo andar de um dos prédios do Tribunal de Justiça do Paraná, o tal do Pleno do TJ, que fica no Centro Cívico. Na cerimônia, bastante concisa, estavam desembargadores, juízes e jovens que querem ser juízes. E a certa altura dos discursos que formavam a cerimônia resolvi sair um pouco, tomar uma água e acabei vendo pela janela o pôr do sol acontecendo (conforme a foto abaixo), ao mesmo tempo que vi o sol queimando sem brilho descendo na linha do horizonte, achei tão lindo, e ao mesmo tempo eu quis pular dali. Senti um vazio sem tristeza, uma falta de perspectiva e conexão, mas não eram sentimentos particulares, parece que eu tenho sentido isso em relação a todos, tenho projetado um descompasso no mundo, tenho interpretado o caos das relações como coisa sem beleza. Por isso pensado agudamente em suicídio em momentos ímpares. O suicídio sempre foi uma realidade pra mim, não sou religioso, mas sempre vi isso como algo que não faz sentido no fim das contas, mas agora sequer tenho tido aquela piedade do sofrimento que algumas pessoas vão ter por eu morrer, mesmo minha mãe, a vontade de suicídio tem se sobreposto a todas essas coisas, inclusive nem carta tenho tido vontade de deixar, é um sentimento de suicídio bastante espontâneo, que, como disse, ao mesmo tempo me assusta um tanto.
[ponto]
Dizendo de maneira prática, isto se dá por muitos aspectos:

A Allana quer, a qualquer custo, morar comigo ano que vem. Segundo ela, não há como nossa relação continuar se não dermos este passo na relação. Mas eu não quero isto, não tenho vontade de morar com ela, sei que minha vida não vai ser boa, especialmente porque gosto e valorizo muito estar sozinho. Também sei que temos inúmeras diferenças e morar com ea vai ser difícil. Então, só há um fim de relacionamento pra gente, ou eu me colocando em um situação que definitivamente não quero, não me vejo, não me sinto a vontade para debater.

Estar no horizonte ir morar com a Allana coloca no horizonte também abandonar a minha mãe, e ter que me relacionar com o meu maior trauma que é a morte/ abandono parental. Então no meu dia a dia estou olhando para a minha mãe como uma pessoa já abandonada, envelhecida, adoecida. O que me faz ter saudades, saudades que se ampliam para divagações extremas sobre o passado, as quais há mais de ano tento bloquear. 

Mas estar próximo demais da minha mãe também me faz mal. O espaço que ela ocupa me impede de relaxar. Apesar de toda a comodidade dos serviços todos que ela faz, eu acabo não fazendo escolhas, não tendo liberdade.

Estando muito conectado com minha mãe fico dependente dos humores dela, por isso tento zelar pelo sono dela, de forma que qualquer barulho noturno me assusta, há muito tempo ela dorme bem aqui nesse apartamento, mas eu fico escutando barulhos a noite toda, ruídos, arrastos, batidas, passos, latidos, que me angustiam, que acabam me incomodando demais. Além de que este apartamento é gelado, ele está em um lugar alto e tem muitas janelas, enquanto eu já sou sensível ao frio. Então minha casa não é lugar de acolhimento.

Não tenho amigos em Curitiba. Allana se tornou minha amiga, mas ela é uma namorada, o que não a torna uma melhor amiga. Me sinto deslocado aqui. Sozinho. Solitário.

Tenho "procrastinado" nas últimas semanas a escrita da minha tese. Depois de boas semanas de escrita proveitosa, apesar de confusa, nas últimas duas ou três semanas não voltei mais ao texto. E esse é o ponto alto dos meus objetivos atuais, fazer minha tese, terminar meu doutorado, e isso deslocou-se um pouco. Isso aconteceu um pouco porque me dei conta que ainda tenho dois anos para escrever a tese, então relaxei um pouco.

Mas coloquei "procrastinado" entre aspas porque na verdade tenho estado sobrecarregado de trabalho, fechamento de médias, elaboração de recuperações, leituras de TCCs, participação em bancas, entre outros, me fizeram deixar o doutorado de lado um pouco, o que me gera culpa e tira o sentido do trabalho de certa forma. 

Fez frio nos últimos dias. É DEZEMBRO e esteve frio, com chuva, sem sol em momento nenhum. Curitiba é recheada de pobreza e abandono. É incrível o sentimento feliz que vem para o meu peito quando tem sol e faz calor. Hoje fez sol, fez calor, mas estive com os pés gelados aqui dentro desse apartamento de merda. Eu preciso urgentemente sair daqui. 

O último livro que li foi o Ioga do Emanuel Carrére, em que o escritor/personagem entra numa depressão profunda, é internado, e relata a vida dos buracos da tristeza. Não sei até que ponto essa energia me acometeu. Porque sei que a literatura entra em mim. 

Há outras coisas também. Mas são menores. Vou tentar descansar nos próximos dias. Mas também me incomoda que quero ficar um pouco só, e um pouco com minha namorada e um pouco com minha mãe, e um pouco com meus amigos, mas quero ficar só, e parece tão difícil poder ficar só sem sentir algum tipo de culpa...

Enfim, acho que não vai acontecer, mas pode ser que eu me mate antes de escrever de novo aqui. Porque estou sob pressão, mas há ainda alguma perspectiva, porque tenho emprego e algum dinheiro. Mas a vontade de me suicidar tem sido palpável, tem acontecido, se manifestado com veemência. Não quero considerar nada sobre minha vida. Ela é o que é, foi o que foi, não quero que sofram por piedade de mim. Quero é que não sofram, que sigam fazendo suas coisas, que vivam suas vidas como têm vivido e alcancem o que puderem, não tenho saco pra pensar no vai e vem de choro lamentação daí continuação da vida, e recomeço de ciclos e essa coisa toda. Pulem a etapa de terem piedade de mim, se possível nem comentem nada. 

  

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

MINHA LEITURA DE "PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR"

 Estava lendo os posts abaixo, e no de título Cidades Invisíveis escrevi que queria ler este livro, assim como queria ler o Primeira Pessoa do Singular, do Murakami e falei que estava com saudades do meu irmão, e estava apreensivo sobre o resultado do processo seletivo da UTFPR. 

Sobre a UTFPR eu já escrevi sobre como fui aprovado e estou me encaminhando para o fim desse primeiro semestre de trabalho lá. Também fiz uma leitura muito boa do livro do Italo Calvino, assim como já comprei e já li o livro do Murakami, para o qual eu daria notas altas se fosse um avaliador de livros. Eu consigo compreender as sensibilidades do que está posto lá, as sutilezas das relações que alegram e entristecem, as expectativas e os mistérios as incertezas e os sonhos, mas que no fim das contas são a própria vida acontecendo, e esta abordagem de se viver no mundo de um jeito curioso para o que não é comum, mas está normalizado, eu gostei muito. Gostaria de poder ler em japonês, no original, porque os contos estão deslizando sobre algo que me parece especialmente musical (Murakami é muito fã de jazz), e tive a sensação de que essa musicalidade da linguagem sempre é matéria fundamental da construção da matéria narrada. Afinal, a boa linguagem tem ritmo, compassos, sonoridade e mexe com nossa adrenalina e nossas ansiedades, como é a música. Inclusive, a música é da matéria do espacial, ela se expande, vibra, alcança, e a literatura está na matéria do temporal, ela se estende, se mantém, sobrevive. Nisso música e literatura são diferentes, mas não antagônicas, porque a nossa experiência do tempo só se dá a partir da nossa observação do espaço, assim como o espaço só se nota por meio do tempo. Posso dizer então que existe uma simbiose meio inevitável entre música e literatura, talvez daí o encanto que a escrita do Murakami (um amante de músicas) causa. 

Acho que estou tentando dizer que os contos de Primeira Pessoa do Singular são sensoriais, que lá tem brisas de outono, cheiros de estádios de beisebol, descrição de uma música composta pelos Beatles que nunca existiu, assim como a proposta de uma Bossa Nova tocada por Charlie Parker ou um macaco-humano peludo lavando as costas do narrador em um ofurô. Eu gosto disso. Porque a vida só não basta, a literatura está aí pra isso, pra fazer a gente mais feliz, ou menos triste. E eu fiquei bem lendo essas memórias do autor, claro, enquanto leitor eu estou vivendo situações interessantes a partir de um lugar seguro, não foi o meu corpo que subiu uma montanha pra ver um concerto que tinha sido cancelado, ler sobre isso é mais confortável do que viver isso, mas é por isso mesmo que eu gosto de ler, porque não quero ficar me fodendo exatamente para conhecer o mundo, Murakami conseguiu me dar, seguramente, boas experiências.                 

terça-feira, 22 de agosto de 2023

EU ESTOU AQUI AGORA

 A felicidade não está em outro lugar, em um outro momento ou em outras coisas. A felicidade está aqui agora. 

Não sei se trouxe a informação pra cá, mas passei no processo da UTFPR e voltei a ser professor lá, algo com que sonhei muito, desejei muito. Já assumi as funções faz mais de uma semana, minhas terças-feiras (hoje) estão pesadíssimas, saio de casa às 7h e paro de trabalhar as 21h30. Na primeira aula da manhã, eu estava um pouco fatigado, já pelo tamanho que seria o dia, e perguntei aos alunos como eles estavam se sentindo hoje em uma escala de zero a dez, e o José Aldo, um aluno mais velho, falou que estava dez - por quê? - porque eu estou aqui hoje, agora. Essa resposta me pegou, eu acho que saiu um pouco daquelas lágrimas que saem dos meus olhos quando vejo algo bonito. Logo depois chegou na sala um aluno chamado Leonardo, ele estuda o criolo haitiano, e quando perguntei como ele estava hoje, ele falou 10, porque ele estava aqui e agora e neste momento. 

O dia foi muito bonito. Com sol. Há alguns dias só fazia frio e nublado. Agora a pouco, tomando banho, ao fim de todas as minhas obrigações, pensei no quanto eles dois estavam certos. É muito bom estar aqui, agora, assim. Ter o que eu tenho, ser o que eu sou, viver o que eu vivo. O melhor não está lá, ou depois, em algo que preciso alcançar, eu estou 10 de 10. Por muito tempo eu sonhei com hoje, e agora estou aqui. Tenho talento, tenho tempo, tenho dinheiro. 

Ontem mesmo eu estava perturbado por ter consciência de que algum sia vou sentir saudades de tudo e todos, isso é muito ruim, mas isso é porque agora está ótimo e eu estou feliz. Fico pensando em quando minha mãe não estiver mais aqui, quando minha namorada não for mais minha parceira, quando tudo for um grande espectro do que já foi, mas isso é uma grande sabotagem da felicidade que é ser aqui agora.

Estou tomado por um sorriso e um ânimo que veio para substituir algum cansaço entreossos existencial. Algo que talvez eu nunca tenha sentido na vida.