ranzinza

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domingo, 23 de fevereiro de 2020

24/02 /2020


Acho que nunca teve um espaço de tempo tão grande sem postagens aqui. Existe um motivo pra isso, e um motivo porquê voltei a escrever:

Estava olhando uma das últimas postagens, quando estava escrevendo da casa do Alisson, nos dias que estava fazendo o concurso pra dar aula na UTFPR Curitiba. Eu não passei no concurso, de fato, no resultado final estava escrito Lucas, não Diego. Acontece que em dez de fevereiro de 2019 (um ano e catorze dias atrás) vim morar em Curitiba mesmo assim. Passei todo janeiro de 2019 na casa da Allana aqui, e consegui um apê muito bom (piscina no condomínio) e viemos. Nossos custos aqui não seriam muito mais altos do que tínhamos em Pato, o aluguel daqui e o condomínio deveriam sair cerca de R$150,00 a mais, mas meu grande desafio seria conseguir trabalhar aqui. Era a minha angustia. Mas eu já vim inscrito no PSS e com todos os docs prontos e no dia 15 de fevereiro saiu convocação, no dia 16 eu fui ao núcleo de educação daqui e peguei aulas em duas escolas do centro. Acontece que a mãe sempre fala que eu nasci com o cu virado pra lua, de fato, foi um parto difícil porque eu estava com a bunda onde deveria estar a cabeça pra eu nascer, ela diz que eu não queria nascer: no dia 17 recebi a ligação da coordenadora do curso de Letras Inglês da UTFPR aqui de Curitiba (a Malu), pedindo se eu estava morando aqui em Curitiba e se eu poderia assumir o concurso que eu havia feito seis meses atrás, porque o Lucas desistiu (conseguiu um trabalho na PUC ou na Positivo). 
Então passei 2019 de maneira muito agradável, com uma vida totalmente nova, na capital, com um namoro sólido (moro a umas  oito quadras da Allana) com um salário muito bom (R$4200,00), com um trabalho muito agradável de professor na universidade. Nos último meses consegui me entrosar com um pessoal que joga basquete aqui no bairro e agora faço parte do time deles, o STORM, e em 2020 vou jogar alguns campeonatos com eles. 
Eu posso ficar o máximo de dois anos nesse cargo de professor substituto, depois tenho dois anos de carência, nesse tempo não posso assumir esse cargo. Acontece que meu contrato é renovado a cada seis meses e no segundo semestre de 2019 o Bolsonaro baixou um decreto cortando todo tipo de gasto das universidades, inclusive com professores substitutos e meu contrato não seria renovado. Foi um momento bem tenso pra mim, achei que o sonho viraria pesadelo, mas três semanas depois o senado derrubou o decreto, e fui renovado. Espero ficar até o fim deste ano.
Desenvolvi uma rotina agradável em 2019. Apesar de que morar com a mãe é algo que me amargura, e minha relação com a Allana tem limites demais. Ainda estou em fase de adaptação com a cidade, acho ela triste, cinza, mais suja e mais vazia (apesar dos ônibus enormes sempre cheios e as ruas sempre movimentadas). Não sei ao certo onde as coisas ficam e qual a lógica dos bairros e direções. Aqui a vida é muito  mais baseada em dinheiro, restaurantes, transporte, etc., e também não tenho amigos com quem eu possa dar um giro simples. Isso faz eu sentir um isolamento muitas vezes, como agora, que resolvi escrever.
Grabde parte da minha vida aqui diz respeito à Allana e a vida dela gira em torno da mãe e do Tê. Eu gosto deles, mas as vezes fico saturado da presença e da proatividade deles na minha/nossa vida. Sempre fazem muitas viagens e tem muitos planos para os fins de semana. 2019 fui com eles pra muitos lugares (Santos, Floripa, e outros) e agora no carnaval eles foram pra São Bernardo e eu resolvi ficar em casa. Acabou que tudo se assentou e resolvi escrever. Eu gostaria de manter o blog mais como um diário, afinal, há vários momentos em que faço o mundo parar de girar ao redor de mim, geralmente medito, mas aqui em Curitiba não tenho conseguido meditar muito. Talvez escrever aqui me ajude. Fui em três sessões de terapia pelo SUS, estava gostando, mas era sempre muito cedo (7:30 da manhã) e abandonei. Existem outros momentos da minha vida que eu quis voltar a escrever sobre mim, como fiz dos catorze ao dezoito anos. Quando decidi acabar meu namoro com a Gabriela comprei um caderno amarelo e escrevi muita coisa lá, mas não desenvolveu, talvez por esse blog estar online eu sinta que ele existe de verdade, que seu sinal está verde, conectado.
[Família]
[pensamento constante com morte]
[planos 2020]
[namoro]
[exercícios físicos]

Meu corpo, novembro


Uma manhã que levei a mãe pegar um ônibus para ir a Joinville. Aí é entre a Orleans e o Barigui

Começo da manhã. Vista da saída do condomínio

Terceiro andar da UTFPR, rampa de acesso sobre a rua sete de setembro.

Em uma das manifestações contra o governo

Saída do prédio, começo de alguma manhã

Torre da TELEPAR. Fui com Rodrigo, Kelma, Lê e mãe na metade do ano.



ZYiad, aluno do PFOL. Sírio. 

Meu aniversário. no Italy.

Fim do segundo semestre. Turma avançada do PFOL


Na UNILIVRE. Quando fizemos o passeio de ônibus de turismo


Quando consegui fazer esse trem de parada de antebraço

Mohammad. Aluno jordânio.

No Qceviche. Eu e Allana nos viciamos nesse restaurante por uns dias. 

Galeão Dourado. Barco pirata de floripa. Ganhei uma caipirinha em um concurso de dança porque eu era parecido com Jesus.

Meu aniversário. 

sábado, 25 de agosto de 2018

Socialismo, desajuste e liberdade


Eu gosto de albergues. Talvez sejam o espaço mais socialista dentro do capitalismo. Você lava a tua louça, você compartilha o chuveiro, compartilha o espaço do quarto, compartilha a mesa do café da manhã, compartilha a geladeira, é responsável pela tua janta, pode deixar na geladeira como doação o que não vai comer e pode comer as comidas que estão lá sem dono, porque são doações. Inevitavelmente (o que é bom pra mim que tenho viajado sozinho) você compartilha experiências, conhece pessoas.

Foi numa manhã antes de eu embarcar para Cuba, em um albergue em São Paulo, no bairro de Pinheiros, mais especificamente, atrás do largo da batata, na estação Faria Lima, linha amarela do metrô sentido Itaquera antes do Butantã, que compartilhei a mesa do café da manhã com um sujeito de Brasília. Um negro formado em direito que trabalhava de assessor de alguém no congresso e também estava sozinho no albergue, fazendo algo em SP que não me lembro mais. Mas conversávamos sobre política e cerceamento de direitos até que ele me disse que “se você respeita as tradições não existem motivos pra você existir. Se você só perpetua o que teus pais te ensinaram a tua existência é desnecessária”. Eu lembrei de Sartre “o que você fez com aquilo que fizeram de ti” e lembrei de Camus “o homem que não se rebela não existe”.

Eu já havia me questionado sobre aquilo, já estava cansado do velho existencialismo, mas levei em silêncio pra Cuba essa coisa das tradições, do respeito às tradições. Do não existir e só perpetuar. Foi uma experiência curiosa visitar tantos lugares importantes da revolução cubana tendo em mente a importância de revolucionar para existir. Sempre admirei os revolucionários cubanos por mudarem profundamente o seu próprio destino e o destino do povo todo, subjugado por uma sistema cruel.

Viver significa ser livre e ser livre angustia, porque ser livre significa fazer as tuas próprias escolhas, compor o teu próprio destino, e nos angustia fazer escolhas porque elas implicam a recusa do que não escolhemos, e deixar possibilidades pra trás entristece, nós que temos consciência da finitude da vida, e muitas vezes não dormimos tão tranquilamente como os cachorros, que não sabem das coisas (ando dormindo mal). Por isso se diz Cuba Libre, a ilha se desprendeu dos mandos dos EUA e abraçou o seu próprio destino. Fizeram a escolha mais difícil, serem livres. São raros. São como poucos indivíduos no mundo.

Existe a dicotomia de sujeitos que escolhem obedecer e serem passivos e dormirem tranquilos, e os outros (nos quais me encaixo) que se incomodam e querem ser autênticos, e se angustiam porque têm urgência de existir. É o “ser ou não ser, eis a questão”. Porém, também estou cansado dessa pergunta, e ando me questionando sobre: como posso ser autêntico em um mundo onde tudo se aprende? Será que a rebeldia não é um outro aprendizado? Que me ensinaram para que eu critique e deixe as coisas mais sofisticadas? Afinal, o socialismo surgiu como reação ao capitalismo e é antes de tudo uma critica a esse, que por meio dessas criticas se aprimora e nunca deixa de ser capitalismo.
Então a minha pergunta faz eu me voltar contra mim mesmo. Me ensinaram a querer ser livre para assim mudar algo mundo? E mudar algo no mundo para que o mundo continue sendo mundo, só que melhor depois de mim?

Eu acho que ninguém me ensinou nada especificamente. Eu escolhi acreditar em coisas baseado nas minhas afetividades, e para encontrar algum conforto de identidade no mundo criei noções de certo e errado. É claro que há muitos pós-modernistas que dizem que a verdade é cultural, construída, relativa, etc., mas por que eu tenho as minhas angustias vivendo na cultura que me ensinou a pensar? Será que vivo na cultura do desajuste? Se sim, nunca terei a minha liberdade e autonomia? Ainda acredito que não. Existe alguma verdade universal e estamos desajustados. Muita gente sofre e o sofrimento em lugar nenhum é cultura. Houve escravidão e há países (não culturas) que cortam os clitóris das mulheres. A burca é absurda. O estupro é nojento. Minha família errou quando eu não pude entrar na piscina com todos os meus primos na festa da família.
Essa tradição me excluiu e na exclusão fez eu existir. E querendo existir eu durmo mal e tenho olheiras, porque quero ver coisas diferentes.  

terça-feira, 19 de junho de 2018

Tudo mudou
agora somos só eu e você numa cidade de parasitas
Quando a chuva parou alguns dias atrás estávamos exaustos
Na desesperança sentíamos o cheiro que hoje sabemos que é de desamparo
Nunca foi desespero
Sempre foi letargia
Sem baterias, nosso relógio é um osso que faz sombra
Ventava quando soubemos do câncer
Fazia uma semana que a eletricidade tinha sumido
A população de ratos aumentava
Resolvemos estocar comida
Logo depois resolvemos procurar armas
Nossos princípios sorvidos pela verdade

O tempo parece ter parado
Agora somos só eu e você contra a natureza em uma cidade abandonada
Quem um dia acreditou em deus agora está morto e suas vidas deixaram marcas nas paredes
Lembra quando raspei minha cabeça naquele salão lindo?
Achei uma carta de amor na gaveta, decidi não te mostrar
Também vi sangue no chão do estacionamento e decidi não te contar
No dia que tatuei tua cara me senti feliz

Ana, esses auto falantes estarão mudos pra sempre?
Não sei se vou vencer o desespero
Eu olho pra frente no vazio e percebo tanta poesia que parece ter que ser escrita
Mas a humanidade acabou e a linguagem parece ter sido sempre só um sonho
Somos só eu e você numa cidade megalopólica cheia de moscas de verão
Eu deveria ter estudado Saxofone antes de tudo mudar Ana



quarta-feira, 6 de junho de 2018

eu vou apagar esse texto assim que o terminar
ele é uma saída para mim nesse momento
que estou confuso, com frio,
indigesto pelo litro de café que tomei ao longo do dia,
e pelas matérias que não consegui estudar ao longo do dia,
da aula que tenho que dar na terça, daqui cinco dias
como segunda fase do concurso para o trabalho que tanto quero
e para o qual competimos eu e outro sujeito mais preparado que eu
estou em Curitiba
nasci aqui meu pai morreu aqui está enterrado aqui
mas estou longe de casa
onde nem sei onde é
mas que tem minhas coisinhas
pra onde sei que posso fugir
em momentos de aflição de pés gelados de falta de disciplina e concentração
começou a chover aqui
e o apê é bem pequeno e não é muito limpo
e colada à minha cama fica uma cortina blackout suja
estou gastando bastante dinheiro, circulando, bebendo, fazendo sexo
inquieto quanto ao futuro,
tenho o sonho de me juntar ao exército revolucionário sírio
estou tentando ser professor substituto universitário
salário legal que me dará autonomia
tenho um romance começado, do qual gosto mas sou indisciplinado para escrever
em cinco meses faço trinta anos
há nove meses defendi meu mestrado
há cinco meses fui sozinho para Cuba
há cinco meses dou apenas umas aulas particulares de inglês e jogo basquete
medito
repenso planejo penso sou
está difícil me apaixonar, algo precisa mudar
talvez os meus ossos estejam alcançando minha pele
tenho medo de o bolsonaro se tornar presidente
estou frustrado pelo lula estar na cadeia
tenho um bom projeto ideológico chamado PULA
(Pensamento da Unidade Latino Americana)
que está somente em projeto há seis meses
não consigo mais morar lá com minha mãe
não quero deixar ela sozinha
mas
de alguma forma o mundo todo ganha sentido pra mim cada dia mais
tenho momentos de lucidez e paz como nunca tive na vida e sinto que sempre os busquei
não sofro mais, não dependo mais de coisas que são inconstantes, não me sufoco mais
talvez por ter 68 mil reais guardados no banco
talvez por não ter patrão
talvez por conseguir argumentar de tranquilamente de acordo com meus princpios
por ter as ideias organizadas
talvez por ter aceitado o mundo um pouco mais
talvez por ter saído da adolescência plenamente já a alguns anos
sei que sou mais meu
apesar das angustias, frustrações, tristezas, incertezas, projetos inacabados, sonhos utópicos demais,
e realidade distópica demais, sei que sou mais meu
sou mais meu do que ontem.
Apesar de estar enroscado com várias meninas que dedicam sua verborragia a mim, e não conseguir afastá-las plenamente,
sei que consigo dizer a verdade com mais confiança.
Faço sexo melhor e não me preocupo em me atrasar.
**
Estou dedicando semanas da minha vida para este concurso, estou dedicando bastante dinheiro por estar longe de Pato Branco, e o sujeito que concorre comigo é aparentemente mais bem preparado que eu, tudo bem se eu falhar? Se no resultado final, depois de todas as horas em Curitiba e toda a alimentação em torno da oportunidade de voltar para a capital de maneira autônoma, estiver escrito no edital não Diego mas Lucas?
Acho que sim
Porque estou aqui também para estar ao redor da Allana e me divertir algumas noites e sair de perto da minha mãe e da rotina que ando tendo em Pato Branco.
Mas se estiver escrito lá Diego, pago o caminhão, trago minhas bagulhagens e venho pra cá e trabalho aqui e continuo ajudando a minha mãe com grana onde ela escolher morar e vivo como um homem responsável, feliz, adulto e livre.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Embarques

Se não estou enganado eu tinha vinte anos quando embarquei para Buenos Aires, na rodoviária de Foz do Iguaçu, eu estava realmente muito cansado. Era 18hrs e eu tinha chegado na cidade às 7hrs, para economizar R$30,00 eu não passei o dia em um hotel e fiquei vagando. Dormi no shopping sem querer às 15hrs. O cheirinho de café e a musiquinha do shopping atraíram os duendes do sono que trabalham em mim, quando abri os olhos um segurança me encarava e o relógio tinha corrido.

No momento do embarque dois alemães não estavam conseguindo se comunicar por não falarem português, nem espanhol, e por algum motivo me procuraram para ajuda-los. Quem me procurou foi uma mulher muito simpática, que logo soube ser mãe da Paola, cujo pai é argentino, e os dois, Paola e Alberto estavam embarcando para Buenos Aires.

Alberto me ajudou muito porque embarquei apenas com a passagem de ida, sem qualquer reserva de hostel, passagem de volta, planos, nada! Mas nesse momento confuso do embarque, em que dois alemães sujos entupidos de bagagens e uma família meio argentina meio brasileira se aglomeravam ao redor de mim, conversei com uma velinha, que se não me falha a memória usava uma bengala.

Infelizmente não me recordo seu nome agora, mas ela me perguntou o que eu ia fazer em Buenos Aires, e como eu não tinha resposta pra essa pergunta falei que ia estudar, o que não é mentira, uma viagem é um aprendizado acima de tudo. Ela ficou muito feliz! Me falou que era isso mesmo que os jovens deveriam fazer, me motivou, falou que na década de 1950 fez a mesma viagem que eu estava fazendo naquele momento, quando ela ainda estudava jornalismo e que ainda nem existia jornalismo no Brasil. Me falou para andar a pé pela cidade “Não pegue taxis! Caminhe pelas ruas, vá nos cafés! Buenos Aires se parece muito com Paris.”

“Buenos Aires se parece muito com Paris”. Já tinha ouvido isso algumas vezes antes, sempre achei um absurdo. Logo do desembarque em Buenos Aires, no taxi em direção ao centro, eu pensei “caralho, Buenos Aires se parece muito com Paris!”. Nunca estive em Paris, mas sei que Buenos Aires se parece muito com Paris (o centro, claro).
Então eu chego onde eu quero chegar nessa história: eu nunca morri definitivamente, mas sei que o caminho dos recém mortos em direção ao purgatório é exatamente como uma noite em que eu estava indo a pé em uma novena com minha avó.

Estávamos em Ampére e eu deveria ter uns onze anos, a rua era de calçamento mal feito, os postes que estavam acesos tinham luzes fraquíssimas, as casas que passávamos tinham cortinas fechadas e luzes amarelas por dentro. Era um bairro de periferia de uma cidade muito pequena de um estado secundário do nosso grande país de terceiro mundo.

Minha avó sempre foi carrancuda e nunca gostou muito de mim. Era como se ela me puxasse naquela (provável) terça-feira a noite de (provavelmente) outubro. No caminho tinha estrelas, corujas, ventos suave nas árvores, penumbra, e um medo profundo que nunca se manifestou mas sempre existiu. Era como se uma grande verdade tivesse sido revelada e ela era má e nada se podia fazer a respeito a não ser se calar, se ajoelhar e se submeter. Logo as velhas se encontraram em uma capela lazarenta de triste. Todas caminhando devagarzinho, rezando juntas baixinho, umas falavam a língua dos anjos. Meu radar pré adolescente nunca decodificou o segredo do lado oposto das janelas redondas e altas. Os santos imóveis de olhar perdido por décadas nos altares, os desenhos com cores pálidas nas paredes que cheiravam fumaça doce de sininho de padre. Bancos de madeira santa demais para vermes. Quanta gente já foi velada ali?

Se na morte existe uma transcendência intensa dentro da nossa mente que seja uma apoteose do que foi a nossa vida, certamente o meu caminho para o purgatório será uma resgate da carranca da minha avó me carregando nessa noite, nessa manutenção da sua morte que é a sua vida. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Looping

Há um problema em a terra ser redonda, ela não tem um centro. Estou falando da sua superfície, porque vou falar de pessoas. Aliás, falarei de um bar.

Dizem que o tempo também é circular, talvez eu tenha nascido no momento do looping do tempo então em que jovens tem que frequentar coisas como fundos de navios, bunkers, tavernas, bares, pubs, e beber coisas baratas de baixa qualidade e sentir no meio do estômago o problema de existir, como se fosse um tipo de solitária comprida e ansiosa que se desenvolveu na nossa gênese ao longo dos anos. Ainda não existe uma tecnologia que no dia seguinte não deixe o sabor do álcool voltar azedo à boca, e a memória não amanhecer embaralhada ou as paredes ao redor da cama darem a sensação de cárcer.

Os dias seguem um ao outro, as semanas, os meses, e sempre, como o ponteiro do relógio que sempre se encontra, muitos jovens se aglomeram na frente do bar. Em geral os mesmos jovens, em geral os mesmos problemas, em geral as mesmas roupas de acordo com a estação, geralmente o mesmo estouro das bolas de sinuca, geralmente os mesmos olhares de canto, geralmente as mesmas frustrações ou orgasmos, ou devaneios.

Estou falando de um bar de uma cidade no fim do mundo, aliás, o fim do mundo teria algo de emocionante, estou falando de um bar em um local completamente deslocado, uma cidade pequena, sem notoriedade, que na sua fisiologia encuca a rotina e a alegria vil. Pior, esse bar fica num porão, depois de uma escada que foge em curva repentinamente da calçada. Esses lugares são o centro do mundo para as pessoas dessa cidade, e eu não posso dizer que estão errados, porque a superfície da terra é redonda, mas posso dizer que aqui não é um lugar glorioso, nem brilhante, nem excitante, tampouco especial. Pato Branco é o nome dessa desgraça. Não acontece nada aqui que não seja relacionado com motores ou coberto por propagandas de supermercados ou frigoríficos.

A desgraça desse lugar não é brutal, não é charmosa, rara nem rica, é uma desgraça pequena, como uma caligrafia de quem não gosta de escrever, numa história óbvia que não terminou. E continua não terminando. Essa cidade é um intervalo, e esse bar é só um bar, e esses jovens não querem mudar o mundo, matar o Temer, conhecer o buda. A cidade quer crescer, o bar quer lucrar, os jovens querem diplomas, empregos e sexo.

Sim, eu estou de saída. no momento que eu voltar a esse texto, daqui uns anos eu vou ser outra pessoa, vou repensar ele, criticá-lo (sou muito duro comigo mesmo), mas agora, aqui, em outubro, começo de verão, recém mestrado, estou sentindo isso. Foda-se você aí no futuro Diego, é o que estou lhe dizendo aqui de 2017, frustrado, em crise, com o remo quebrado, estalando os dedos, sem um pingo de tristeza e sem pingos de tesão, desinteressado e observando. Colocando minhas iniciais com um canivete.

Se eu morrer amanhã, morri. Com a sensação de quem finalizou o ciclo, e quando foi momento de celebrar se questionou. Sem respostas claras, e com a noção de que qualquer resposta seria insuficiente, recomeçou.

[estala-se um dedo]

[sorri-se]

[olha-se para a frente, o horizonte reto]

Já fechei esse bar e já discuti com o dono e um funcionário. Já mudei o mundo ali dentro e vim pra casa bem apessoado, nunca com cheiro de tabaco. Eu não fumo.
Mas se a terra fosse plana, ou um bloco, quadricular, etc., ela não combinaria comigo nesse momento, essa sensação de planície, de equilíbrio vasto, de grande segurança, não poderiam condizer com isso que eu sinto. Portanto, talvez, a minha problemática não seja a cidade, ou o bar, mas essa constante sensação de desequilíbrio que a redondeza da terra me provoca, esse looping do planeta e do tempo que me deixam tonto, me dão ânsia de vômito e perturbam minha percepção.


Sou o único sóbrio que é ridículo, tropeça nos buracos das palavras e das relações. Obviamente não, esse texto é uma grande brincadeira, sou mais seguro do que isso. Todos são ridículos sóbrios, a diferença de mim pra eles é que eles continuam ridículos bêbados, eu me torno... menos grosseiro. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

LUZ E DEPRESSÃO

Leitor, eu escrevo partindo do pressuposto que você já levou um choque elétrico.

Agora imagine todos os cabos de um poste, imagine-os conectados ao teu estômago, peito, costas e cabeça. Se você já levou um choque vai conseguir imaginar a força que esses cabos terão sobre você quando ligados.

Na realidade esses cabos não estão em você, mas as forças que você imaginou estão, por cabos invisíveis como se fossem Bluetooth, Wi-Fi. Essas forças condicionam você a atravessar a rua no mesmo lugar todos os dias, elas condicionam você a fazer o café na mesma hora e sempre começar a comer a coxinha pela pontinha ou pela parte maior, temperar a salada ou não, comer uma banana antes de ir jogar basquete, deixar o volume do som do carro no 12, etc. Pior: acreditar na polícia, na democracia, acreditar na ciência e admitir deus como uma invenção. Pior ainda: amar a tua mãe e o nenezinho que saiu da tua namorada, desconfiar do preto, do pobre, da mulher, do muçulmano, odiar o diferente e gritar gol. Ainda pior: não pensar sobre a tua própria morte.

Mas em algum lugar existe um homem sem a influência dessas energias, eu não o conheço mas sei que ele existe de acordo com a minha intuição que me faz escrever agora, e ele está cortando o próprio braço com uma gilete agora em algum lugar do espaço fora desse quarto.

Sabe aqueles outdoors eletrônicos enormes de propagandas que acendem à noite e iluminam a cidade cheios de cores que explodem dos anúncios e refletem nos carros, muros e vidraças? São o Bluetooth que grudam você no mundo como desejam os monstros da ordem e do progresso. Luz e depressão. Eletricidade e anemia.

Tem alguma coisa no teu celular aí do lado, alguma notificação, mas a pessoa está em algum outro lugar desse labirinto de luzes de Led e eletricidade mental simulando uma presença dentro do teu smartphone, por isso luz e depressão, eletricidade e anemia.

Outro dia fui tomar um café. Na mesa da frente uma menina sozinha deslizava o dedo na tela do celular enquanto levava a comida até a boca sem ver o que estava comendo, o café saía da máquina, a conta foi paga com cartão, e eu fiquei cuidando o semáforo piscando do lado de fora do vidro, como se fosse uma menina bonita meditando.


Em Meridiano de Sangue, considerado o livro mais violento do século XX, o Juíz Holden, um dos líderes de um bando de assassinos de índios, ao fim do livro, fala para o Kid que sabe que o tecido do coração dele apresenta algum tipo de defeito e por isso ele nunca foi um subordinado naquele contexto tenebroso de violência, ele demonstra algumas piedades sutis ao longo da obra. Eu me pergunto se o excesso de conforto e piedade que as máquinas trazem ao cotidiano da gente não deixa algum tipo de defeito no tecido do nosso coração... na verdade, nem é mais uma pergunta que me faço, já é uma resposta que encontrei.